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Análise · Vendas B2B · IA

Dez agentes por vendedor até 2028, e a produtividade parada no mesmo lugar

A Gartner projetou a proporção de agentes de IA nas operações comerciais e, no mesmo documento, cravou quantos vendedores vão dizer que aquilo melhorou o trabalho deles. O segundo número é o que decide orçamento.

Por Leandro Manique·Founder, ZEITH Co.·3 de agosto de 2026

A Gartner publicou em 28 de julho a projeção que encerra a fase eufórica dos agentes de IA na área comercial. Até 2028, a consultoria espera dez agentes ativos para cada vendedor humano dentro das operações B2B. No mesmo material veio o contrapeso: menos de 40% desses vendedores vão afirmar que os agentes melhoraram a própria produtividade. Dan Gottlieb, VP analista da prática de Vendas da casa, deu nome ao risco com o termo agent sprawl, o espalhamento de agentes que multiplica atividade digital e deixa o resultado exatamente onde estava.

A leitura preguiçosa desse par de números termina em "agente de IA em vendas é promessa vazia". Ela morre dentro da própria pesquisa. Ouvindo 210 diretores comerciais e executivos seniores de vendas entre janeiro e fevereiro de 2026, a Gartner encontrou o outro lado da moeda: organizações que economizam tempo com IA e reinvestem esse tempo em atividade de alto impacto têm 2,2 vezes mais chance de superar metas de crescimento de clientes e 3,1 vezes mais chance de superar metas de conversão de contato em oportunidade. A tecnologia devolve horas com consistência. O que varia de empresa para empresa é o destino dessas horas.

Há um terceiro número na mesma pesquisa, e ele é o mais desconfortável dos três. Seis em cada dez líderes de vendas afirmam que a receita da área é determinada, em boa parte, por fatores fora do controle deles. Vindo de quem responde pelo número, isso é uma confissão de arquitetura. O que escapa ao controle de um time comercial tem endereço conhecido: ser encontrado antes do contato, ser reconhecido antes da conversa, estar na lista curta antes da reunião. Nada disso se constrói no salão de vendas. Empresa que nunca montou essa camada trabalha com demanda do jeito que se trabalha com clima.

Seis em cada dez líderes comerciais dizem que a receita depende do que está fora do alcance deles. Essa frase descreve uma arquitetura mal desenhada.

Desenhei a ZEITH Co. em três frentes por causa desse mecanismo, e o dado da Gartner só colocou percentual em algo que já estava visível na operação de qualquer empresa média brasileira. Aquisição B2B, onde agentes fazem pesquisa de contas, abordagem personalizada e triagem de resposta, e entregam a conversa madura para um humano conduzir. Presença na IA, onde a empresa vira entidade reconhecida pelo Google e pelos assistentes que o comprador consulta antes de falar com qualquer fornecedor. Reputação, onde a prova social vira camada ativa de trabalho. As três operam encadeadas por um motivo simples: agente nenhum cria aquilo que não existe.

Um agente instalado sobre uma operação sem presença reconhecida e sem reputação verificável produz o pior resultado disponível no cardápio: volume alto de contato batendo em gente que nunca ouviu falar da empresa. O agente cumpre a tarefa dele com perfeição. O sistema em volta devolve zero. Essa distinção acaba de ganhar previsão numérica de uma consultoria global, e ela pesa igual para o dono de uma empresa de vinte pessoas no Brasil e para uma corporação americana com mil vendedores em campo.

O agente cumpre a tarefa dele com perfeição. O sistema em volta devolve zero.

O mercado fornecedor caminha na direção oposta ao problema. As grandes plataformas embutiram agentes em praticamente todo software corporativo, e a oferta de prospecção automatizada se multiplicou no último ano. Todo mundo vende motor, e vender motor ficou fácil. Enquanto isso, a atenção do comprador se concentrou em poucos pontos de entrada. Um levantamento da Previsible publicado em julho, sobre 6,77 milhões de sessões vindas de assistentes de IA em 166 sites ao longo de 19 meses, apontou o ChatGPT respondendo por 92,4% desse tráfego. Motor se compra em uma tarde. Lugar na resposta que o comprador recebe, não.

No Brasil o descompasso aparece uma camada abaixo. O estudo do Sebrae em parceria com o FGV IBRE e o Google, que ouviu cerca de cinco mil empresas, encontrou 96% das micro e pequenas empresas familiarizadas com IA generativa e apenas 15% usando a ferramenta com frequência. Entre as que usam, a finalidade dominante é marketing e divulgação: 59% nas pequenas empresas e 74% entre os microempreendedores individuais. O país adotou IA para produzir mais peça de comunicação bem no momento em que a decisão de compra passou a ser filtrada por máquinas que não consomem peça como uma pessoa consome.

O líder brasileiro que pretende chegar em 2028 do lado bom dessa estatística precisa responder três perguntas ainda nesta semana. Quantas horas a sua equipe comercial economizou com IA nos últimos seis meses, e para onde exatamente essas horas foram? Se um comprador do seu setor perguntar hoje a um assistente quem resolve o problema que você resolve, o nome da sua empresa aparece na resposta? E quantos dos agentes que você já paga estão trabalhando sobre uma base de dados que ninguém organizou?

Minha posição sobre isso é firme e a projeção da Gartner só a reforçou. Agente de IA funciona como multiplicador, e multiplicador aplicado a zero devolve zero. A vantagem dos próximos dois anos vai para quem montar a base antes de contratar o exército: presença que faz a empresa ser encontrada, reputação que faz a empresa ser escolhida, e só então agentes que fazem a operação escalar. Quem inverter essa ordem chega em 2028 com dez agentes por vendedor e a mesma receita que tem hoje.

Leandro Manique
Founder · ZEITH Co.